Prova de ciclismo

timelapse photography of a person riding a road bike
Photo by Markus Spiske freeforcommercialuse.net on Pexels.com

Enquanto estava a tratar da casa, os meus filhotes brincavam (quais filhos de Doula) e ouvi:

“Onde é que vou ter o bebé, mano?”, pergunta o mais velho ao mais novo, com um boneco dentro da camisola, qual barriga de 10 luas passadas a germinar uma vida!

O mais novo encolhe os ombros e desata a correr, dando o melhor conselho silencioso que poderia dar: “Ouve-te! Decide!”.

No fundo todas queremos o mesmo; ter um parto tranquilo, transformador, bonito, respeitado, apoiado. No meio de tanto ruído na nossa cabeça, através de media, amigos, familiares, histórias que nos caem ao colo sem pedir licença, tomar decisões é um desafio tremendo!

Há os que nos dizem “”pá” o sofrimento é atroz, tive uma amiga que aconteceu x, e y. O melhor é despachares isso.”

…quantas vezes, não é?

A pergunta que devemos colocar em cima da mesa, não é “porque raio é que agora veio à baila a moda do parto natural, e os partos em casa?”

A pergunta deveria ser “Porquê que as mulheres se têm manifestado tanto acerca de Violência Obstétrica? Porquê que alguma até equacionam parir em casa, mesmo sem articulação entre o SNS e as famílias que pretendem partos domiciliares?”

Ou melhor… resumindo ainda mais a questão: “O quê que se está a passar?”.

Tentando responder a isto,- não utilizando títulos, ou procedimentos- vamos pegar neste conselho levezinho como o pólen da primavera, que nos faz espirrar como o catano. Vamos projectar isto para a volta a França (perdoem-me, mas não perco a oportunidade de criar alegorias):

Então temos um ciclista super focado e motivado, andou a estudar a melhor forma de ter um desempenho genial e terminar a prova (sabe que o pódio está longe da sua realidade, porque não tem investimento para apostar em tudo o que se pode -e não se pode (mas isso é outra história) – fazer.

Vamos dar-lhe um nome, pode ser o Ezequiel.

Portanto, o Ezequiel está na sua vidinha, Depois dos seus treinos, está finalmente na prova! Camisola suada e respiração sonora de tão ofegante, joga água para cima dele próprio porque precisa de dominar o calor e a respiração. Sente os músculos a bombar no máximo, já a soltar uns grunhos de esforço, agita a cabeça em manifestação do esforço tremendo que está a fazer. Mas olha em frente, não perde o foco porque o que ele quer é realização pessoal! Quer chegar ao fim, mostrar superação, gozo, conquista!

Vem aí uma subida daquelas mesmo lixadas. O Ezequiel não mostra medo, concentra-se no que consegue dominar, gere as dores musculares, e quando dá por ele, a subida ficou para trás, e está tudo controlado. Excelente! O início da prova está controlado, acabada a primeira subida mesmo difícil, que no fundo era o que o assustava mais, saber se ia ou não aguentar as subidas.

No caminho do Ezequiel, passa o Aníbal que lhe diz “Oh rapaz! Para quê esse esforço todo, hein? Estás aí todo arruinado, em sofrimento. És masoquista ou quê?”

O Ezequiel não responde, porque está concentrado, mas o Aníbal é chato como o *piii* e vai atrás dele, de carro (claro), e leva alguns amigos especialistas na matéria.

“Ouve lá meu, conheço uma forma muito mais fácil de fazer isso, e despachamo-nos todos daqui mais cedo! Puxo-te a bicicleta e vais lá dar na mesma! Ou então arranjo-te uma mota e fazes antes outra prova (riso sarcástico), porque o esforço que estás p’raí a fazer, é só etúpido, mesmo…”

O Aníbal é um porreiraço da organização da prova. Ex ciclista profissional, tem inúmeras especialidades, nomeadamente em motricidade humana, e mais umas merdas que entretanto tirou no estrangeiro. É um tipo sábio, ninguém o coloca em causa e além do mais, tem de ter tudo controlado… Não vá o Aníbal fazer a prova acabar 24h depois do previsto…

“Estes tipos com a mania que são ciclistas profissionais…”

O Ezequiel está focado, ele quer MESMO fazer aquilo. Não responde. Ele não tem pretensões de saber tanto como o Aníbal, nem tem 1/10 dos conhecimentos que o Aníbal tem, mas estudou e aprendeu o suficiente para fazer esta prova! Está confiante e grita, entre arfanços de esforço “tenho…ali um plano…está…no carro da minha equipa.”

Porquê que o estão a abordar, anyway?!

“Meu! Pah, ‘bora lá. Já tirei a tua equipa daqui, só estavam a atrapalhar!” – dizendo isto, arranja forma de o puxar contra a vontade dele. Os amigos organizam-se, dizem-lhe umas coisas, do tipo “vá lá miúdo, a gente quer ajudar-te. Vais chegar lá na mesma! Continua a pedalar (a revirar os olhos) se é isso que queres,continua lá a fazer a cena -estúpida, primitiva, irracional, da moda- e nós estamos cá para ti, ok man?”

O Ezequiel está completamente off, na ciclolândia e só quer chegar ao fim.

Isto acabou por o atrapalhar, o desorientou-se, perdeu o ritmo da respiração, perdeu a orientação – já não sabe qual era o caminho- está sozinho, e começa a aceitar a ajuda. Pela primeira vez, a dúvida assolou o seu espírito, mas assim de uma forma violenta!

“Não sou capaz… se calhar isto não é para mim… não sou forte o suficiente, ou há algum problema com o meu corpo …”

Tenta não desanimar, porque afinal isto era o seu sonho.

“…talvez para a próxima volta a França…”

Quando dá por ele, a meta já passou. As dores sentem-se, assim como o cansaço. Está contente por estar ali, de qualquer modo. Não tinha pensado que isto pudesse acontecer… Não tinha contado com o facto de alguém decidir por ele, fazer por ele e desarmá-lo daquela forma.

O Aníbal foi o gajo da cena, porque safou o Ezequiel de se lixar todo na prova. Ele não sabia o que ia para ali fazer, claramente. Não tinha literacia para planear aquela volta. Onde é que já se viu um camisola amarela com um bicicleta daquelas, com material daquele, com uma preparação tão “”natural””, a negar coisas que nos aumentam a performance?

O que o Aníbal não sabe, é que o Ezequiel não queria a camisola amarela…Só queria percorrer o caminho, fazendo as suas próprias escolhas sobre o seu ritmo, o seu material, os seus recursos, a sua equipa. Ele queria fazer a sua própria volta e chegar ao fim. Se no caminho ele precisasse de ajuda, gostava de ser ele a pedir essa ajuda. Gostava que a sua própria equipa o acompanhasse e fossem colocando as alternativas que ele tinha cuidadosamente elaborado e colocado nos planos B, C, D…

O Ezequiel sabia que podia vir a ser preciso alguma intervenção… Sabia que eventualmente podia ter um furo, um choque com algum outro ciclista ou qualquer outro obstáculo que o atrasasse muito. Sabia que podia até, em última instância, chegar ao ponto da exaustão ou dores extremas e aí sim, ter que pedir que alguém o fosse buscar, ou lhe desse algum apoio. O objectivo dele, não é ser o mais rápido ou o melhor.

Ele não quer a camisola amarela, quer fazer as suas escolhas, ser respeitado e chegar ao fim…

 

2 thoughts on “Prova de ciclismo

  1. Ana Patrocinio

    Uau que analogia brutal… Há muito aquelas cenas da “moda” ah está na moda agora os partos naturais bla bla bla, neste caso não acredito que seja mais uma moda e sim um despertar, um despertar que se tem propagado entre mulheres… Adorei este texto e a forma como consegues passar a ideia das coisas com uma analogia fantástica, queremos mais!!! 🙂

    1. Querida Ana, obrigada ❤
      É a questão das opções. Não há certos e errados, há apenas a dignidade e respeito pela liberdade de escolha. Concordo contigo, é um despertar ❤ que bonita palavra para definir este "movimento global".

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