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Ser criança. Aquela inocência, o viver no “agora”, a espontaneidade, a forma como acreditamos em magia, no amor e na bondade.
Onde rimos a bom rir, choramos a bom chorar, libertamos a raiva quando ela chega. Em que os sentimentos explodem, certo, mas são expressados, são partilhados. Onde pedimos colo quando a emoção é demasiado grande para nos caber no pequeno corpo… onde queremos contagiar os outros com as nossas gargalhadas fortes, que nos sacodem.
Ser criança é viver intensamente, é ter os olhos abertos para as coisas maravilhosas que o mundo tem para nos dar. Por tudo isto, não entendo a expressão que insistem em usar nos adultos “estás a ser infantil”, como se fosse uma reprimenda. Ser infantil? Maravilhoso!
Os adultos corrompem os corações inocentes das crianças; no fundo são os adultos que desenham a violência escarrapachada no dia-a-dia das crianças. Crianças essas, que são esponjas, que olham com sofreguidão para toda e qualquer coisa nova, e a querem absorver imediatamente!
A bênção de se ser mãe/pai, avó/avô, tia/tio…de ter uma criança no seio do nosso núcleo, é como um passaporte para voltarmos a viver novamente naquele padrão da inocência, do viver o momento, da espontaneidade, na celebração da magia, no amor e na bondade.
Na verdade, todos nós temos um Peter Pan dentro de nós, que chora ruidosamente, o que a sociedade aceita como sendo a definição do adulto.
Para “eles”, o adulto não pode rir perdidamente, até que a barriga doa, porque viu uma coisa hilariante! Ai de quem o fizer na baixa da cidade, que imediatamente é comentado e na pior das hipóteses vai parar um vídeo ao Youtube “maluca na baixa”.
Ai de nós, adultos, que façamos uma cena no trabalho, uma birra! Ai de nós que manifestemos um desagrado tão grande, que nos foge do peito e se solta à deriva e descontroladamente numa sala “formal” onde se “trabalha como um adulto”.
Claro que com a maturação do nosso cérebro, e com o treino desta coisa do gerir emoções, crescem também responsabilidades sobre como lidar com elas, contudo caminhámos num extremo tão brutal, que sinto que ser-se adulto, é quase o fechar de forma hermética, a espontaneidade da nossa alma. Temos de fechar bem a tampa, para não ferir outros “adultos”, que depois também têm de fechar as suas tampas, e isto assim sucessivamente até que damos por nós, como uns adultos demasiado hirtos, demasiado plásticos, demasiado tensos. Se alguém fizer um furinho numa daquelas tampas, de um daqueles adultos, os frascos partem-se e jorram emoções baralhadas e desconcertadas que batem onde devem e onde não devem.
Não somos frasquinhos.
Não somos robots. Somos humanos grandes! E estes humanos grandes querem obrigar as suas crianças a fechar as suas tampas hermeticamente desde (quase) sempre. Em vez de encherem aquele frasquinho com UMA coisa, querem fazer uma salada, para terem um frasquinho precioso e rico, cheio de coisas. Mas sempre a pôr lá dentro, e fechar a tampa…
O que vai acontecer, quando a tampa saltar?
O que estamos a fazer, aos nossos pequeninos?
Vamos soltar as nossas tampas, vamos rir, e chorar uns com os outros! Vamos expressar as nossas emoções sempre tão controladas a rédea (cruel) e crua!
As nossas crianças precisam de Peter Pans nas suas vidas! Humanos grandes, que SABEM ser crianças. Adultos grandes que sabem gerir as suas emoções e as manifestam, e só assim as crianças vão aprender a sentir, e manifestar. A pedir ajuda porque “Ai, esta emoção é confusa!”.
Aqui, adultos, vemos como nós temos as nossas emoções todas emaranhadas, ao ponto de nos ser difícil chegar ao patamar da verdade, da autenticidade, e ver a magia, ver a beleza e a bondade nos corações destes humanos pequeninos, que só querem amor nas suas vidas.
É preciso ter uma tampa hermética já no ponto da fusão com o frasco, não a conseguindo desapertar aos poucos, para não conseguir ver as coisas mais valiosas e simples da vida!
Vamos soltar as nossas tampas, devagar e com compaixão, vamos deitar fora os manuais e as capas pesadas das personas que nos impingem. Vamos ser crianças grandes, porque só assim, o mundo irá conseguir ver o que realmente é a magia da Vida.