“O que espero neste parto? Qualquer coisa que não seja agressão física e verbal, para mim já será melhor do que a experiência anterior.”
Dói.
Qualquer alma que ouça estas palavras que trepam das entranhas de uma mulher magoada e traumatizada com o seu parto, sente dor. É impossível não sentir.
Mais dor ainda, quando na mesma linha de pensamento se ouvem as palavras “Foi o melhor e o pior dia da minha vida”. A linha de pensamento era sobre o que sentia o grupo que era crucial, para uma experiência de parto positiva.
Os grupos de partilhas entre mães, acredito que sejam uma forte ferramenta para melhorar os cuidados prestados a mulheres na gravidez e parto. Vemos frequentemente enfermeiras parteiras, muitas doulas, e ultimamente têm surgido os mais variados profissionais das mais variadas áreas. Muitos que focam o seu estudo na Violência obstétrica.
Portugal abriu timidamente as portas, para dar a conhecer a violência obstétrica. Alguns profissionais negam a existência dos factos, porque certamente nunca se sentaram num espaço de partilha destes.
A porta aberta, já não é suficiente para a odre de traumas, lágrimas, frustração, impotência. Já não é suficiente para deixar passar o volume de depressão pós parto, nem é já tão pequena que contenha estas histórias.
Ganharam força, saíram da sombra da vergonha e entenderam (e custa tanto!) que a culpa não é da mulher que está a parir.
Olhos de enfermeiros e enfermeiras marejados de lágrimas, mães que fixam o chão porque o seu coração também ressoa naquelas palavras.
Não desvalorizem a coragem destas pessoas. Destes profissionais que aparecem nos círculos, destas mães, destes pais (que também têm marcado uma posição, e muito bem), que já não toleram mais que lhes bata a porta a normalização da VO. Estas pessoas informam-se, procuram profissionais/colegas empáticos, percorrem km se tiver que ser, para que a sua voz seja ouvida!
A “linha de montagem” é um argumento fortemente utilizado, mas que não pode justificar que sejam traumatizadas mulheres e famílias, que sejam carimbados passaportes com as siglas da Depressão Pós-Parto (DPP)! A DPP mata, destrói, separa, dói!
Em conversas abertas com famílias, acerca das suas experiências, cada um vai tirando dos ombros o peso da vergonha que trancava a sete chaves os episódios de VO. E dói. Dói ouvir, dói sentir, dói olhar para o tamanho do sofrimento que tem que ser guardado numa caixinha, envergonhado e desacreditado.
Mas ao mesmo tempo inspira!
Quando as mulheres falam acerca das suas experiências, e estão grávidas ou com vontade de trazerem mais filhos a este plano, a catarse é poderosa. O poder das mulheres nasce das mais variadas formas, mas mulheres feridas, dão a volta e lutam para serem ouvidas. Geralmente com sucesso!
Apesar de tudo, o parto não devia ser um cenário de activismo, muito menos um cenário de luta onde as famílias pedem para serem cumpridas as directrizes básicas da OMS.
“Quero ser ouvida” / “Foi o melhor e o pior dia da minha vida” não são frases raras.
Convido a comunidade civil a assistir pelo menos a uma partilha sobre gravidez e parto. Olhar nos olhos de quem relata a VO na primeira pessoa. Verem a sua dor, sentirem a amargura. Depois -só depois!- de o terem feito, questiono como pode ser o plano de parto um documento desdenhado, negado e desvalorizado por alguns profissionais de saúde?
Que voz vão ouvir, quando maltratam ou passam por cima do documento que manifesta os desejos daquela mulher, que está vulnerável?
Talvez aguardem por ouvir uma voz radiofónica a relatar o número ascendente de casos de depressão pós parto…
E aí, que cada um dos profissionais que conscientemente recorre à VO, tenha o discernimento de rever em estilo trailer de mau gosto, os olhos das pessoas que foram vítimas dos seus procedimentos. Porque nunca é tarde para mudar, e mudar tarde é melhor do que mudar nunca.
Pela mudança e humanização dos cuidados às famílias,à mulher!