A Violência Obstétrica, não se resume ao parto.

Estamos em plena quinzena (+1 dia) de activismo mundial pelo fim da violência contra as mulheres. Esta campanha iniciou-se a 25 de Novembro e irá até ao dia 10 de Dezembro, que é o dia dos Direitos Humanos.

A Violência Obstétrica não é uma ilusão, um pesadelo ou um azar que se resume à excepção à regra. Pelo contrário. A Violência obstétrica é a regra, e se tem a sua voz por situações decorrentes nos parto, acaba muitas vezes por esmorecer à violência para com puérperas. Logo imediatamente após o parto, e até à alta.

Esta violência tem mil rostos, mas um deles e aquele que me fez escrever estas linhas: a falta de skills para apoiar as mulheres que querem amamentar.

E aqui falo com uma grande amargura, porque o vive na primeira pessoa, com o meu filho mais velho, e porque o vivo de fora, uma e outra vez, com as mulheres que acompanho.

Vou relatar algumas situações reais. A mãe que é tratada de forma paternalista, inferiorizada e ridicularizada porque quer pegar no filho e não autorizam. A mãe que pede incessantemente para amamentar o seu filho, e a ajuda que tem é uma agressividade tremenda e desvalorização pelo colostro, referindo-se a ele como “água que não faz nada”, passando a pressão para suplementar SEM recomendação médica.

As mulheres que tentam fazê-lo sozinhas no bloco, e têm a sorte (e que sorte!) de ter uma enfermeira especialista que por acaso pagou do seu bolso uma formação sobre amamentação, que dá uma ajuda excepcional na pega. Sobe para o internamento e cai na twilightzone da amamentação, em que imediatamente insinuam que o bebé não mama (com horas de vida!) e picam para análise de glicémia. Essa mesma pessoas, que ordenha sem consentimento, que magoa (com risco de entupir ductos), que exige uma quantidade especifica de ordenha. Coloca bomba (a menos de 24h do parto), aerom, dá biberão, oferece chucha. Pede que se comprem mamilos de silicone, sempre alertando que a latinha facilitaria a vida de toda a gente.

Mulheres que lutam contra isto e assim que ficam sozinhas, voltam a ter ataques em que picam novamente, em que assustam, exigem, medem, pesam, tiram,ofendem, humilham.

Mulheres que em lágrimas, sentem que não conseguem ter estofo para amamentar e desistem.

close up photo of woman carrying baby
Photo by Silvia Trigo on Pexels.com

E porque desistem? A amamentação é difícil?

A amamentação é exigente sim. Muito e nestes casos é sobre-humana, a mulher que consegue passar por cima disto e ainda amamenta. O início é uma aprendizagem que pelas interferências e pelo medo, pode ser MUITO difícil (e os números de mulheres que deixam de amamentar nas primeiras semanas, ditam isso).

Não é suposto que o pós-parto se inaugure com guerras. Guerras que colocam a mãe numa posição extremamente injusta e a suportar um peso terrível. Mães que ouvem “o seu filho pode ficar com danos cerebrais irrecuperáveis”, “o seu filho vai morrer à fome”.

Face a tudo isto, irá surgir uma subida de leite num cenário em que o bebé não está a mamar como devia (porque a mãe está a ser vítima de acções contraproducentes), que eventualmente será dolorosa na melhor das hipóteses, e na pior, chegar a uma mastite que conduz algumas mães, à opção da secagem do leite.

Vamos aprofundar esta questão. Se uma mulher QUER amamentar, e sai fatigada do hospital (cerca de 4 dias após o parto), com comprimidos para secar o leite, o que a leva a tal?

A resposta é simples: uma tremenda falta de apoio especializado, e uma tremenda falta de tempo dedicado a cada mulher. É MUITO mais fácil -para os profissionais do internamento- sacar biberões para cada bebé. Mas MUITO mais fácil. Difícil, é sentar com a puérpera e observar. É difícil dar tempo, explicar a amamentação como funciona, porquê que mamam tantas vezes no início, porquê que o leite é aguado, porquê adormece na mama, porquê que parece que tem sempre fome, porquê que dói quando pegam na mama.

É difícil explicar a pega, as posições, ensinar a ordenha, explicar como fazer compressões, identificar mastites e ductos entupidos e mostrar como se resolve, e dar tempo para mãe e bebé se conhecerem e encontrarem a pega, a posição e o tempo que precisam.O tempo é a chave que não abre nenhuma porta no internamento, relativamente à amamentação.

Mesmo que o parto seja espectacular transformador, é normal que depois da Violência nas primeiras horas de vida do bebé (que também é aspirado e picado e medido e fica ansioso e nervoso com a ansiedade da mãe), o estado depressivo da mulher esteja a poucos passos.

Não se trata de liberdade de escolha. Estamos a falar exactamente acerca da imposição de uma escolha! E essa imposição pode não ser directa, porque muitas vezes não é, mas vence pelo cansaço e pela falta de apoio.

As dores físicas e emocionas de uma puérpera que passa por tudo isto, são um grande perigo para a saúde mental destas mulheres.

É suposto o pós-parto ser uma lua de leite. Uma fase de transição e de namoro, de mimo, numa fase exigente e cansativa. Tudo o que envolve trazer um bebé para casa, ou receber um bebé na nossa casa, é uma mudança avassaladora no estilo de vida, e uma missão que a generalidade das pessoas abraça com uma paixão feroz. É desafiante, é exigente e cansativo, mas faz-se com muito amor.

Se aos desafios naturais se somam desafios totalmente desajustados, temos um cocktail pronto para baby blues.

As pessoas de fora, vendo a encruzilhada da mulher, tentando ajudar muitas vezes reforçam que não é necessário o sofrimento ( e não é!), e a opção pelo leite adaptado é sempre uma solução para o fim dessa sensação de impotência e insegurança.

A família acalma, os amigos acalmam, mas a mulher inquieta-se. Porque no seu íntimo, as suas expectativas são defraudadas, a sensação de falhanço (que não é da sua responsabilidade) é gigante, e a solidão aperta. Aperta, porque ninguém quer ouvir um “mimimi” porque preferia amamentar. Então a mulher sofre em silêncio, até que um dia encontra um lugar seguro para desabafar.

Tudo isto é desvalorizado “o que importa se é mama, se é LA? O bebé está bem! O LA é seguro e alimenta perfeitamente.”. Certo. É verdade (quando as regras de segurança são ensinadas e respeitadas). Mas e o que a mãe queria… Não é importante?

Por ser importante, escrevi estas linhas.

Temos excelentes serviços voluntários de apoio à amamentação, tanto telefonicamente como presencialmente, mas era importante que este apoio de 1ª linha estivesse presente nos primeiros momentos da vida de mãe daquela mulher!

Temos profissionais de saúde que procuraram formações sobre amamentação e estão presentes em alguns hospitais e Centros de Saúde. Era importante que também a questão da amamentação fosse considerada para não ser uma questão de sorte ou azar com a equipa (assim como já é o parto).

As mulheres estarem livres de sofrer episódios violentos, não devia NUNCA ser uma questão de sorte. Devia ser a regra!

Esperançosa que este texto seja uma bárbara memória de um passado inaceitável numa sociedade evoluída, deixo o meu abraço sentido a todas as mulheres que foram vítimas de violência obstétrica.

Força!

 

P.S. Por tudo o que escrevi acima, temos todas e todos, a obrigação de não condenar uma mãe que alimenta o seu bebé a biberão. Nós não sabemos se é opção (que nunca deve ser condenada), se não é opção, o que levou a tomar essa decisão, o que sofreu, o que sentiu, o que lhe aconteceu. Sororidade!

 

 

 

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