Pós-parto imediato

sem filtros

pósparto

A foto seria poética, como o poema que aparece destacado.

A experiência já a tinha, uma vez que nesta foto estou com o meu filho mais novo, mas estes esgares de sofrimento quando vão fazer um cocó, ou os bolçares, engasganços e sejam-quais-forem-os-mecanismos-vitais dos nossos bebés, colocam-nos em imediato estado de alerta, como ilustra a foto.

Este estado de alerta é permanente! P e r m a n e n t e!

Muitas pessoas pedem para descansarmos, e para termos calma, ignorando que é um mecanismo de sobrevivência, inconsciente e automático. e muito (muito!) cansativo.

Aqui estava eu na farda (como lhe chamo) do pós-parto. Mamas disponíveis, top que facilmente subo e desço, cabelo em trança, parte de baixo depende se consigo ou não, provavelmente tinha sido bolçada.

Quando estamos neste estado de alerta permanente, o nosso modo é o de sobrevivência do recém-nascido. Não do nosso.

E por isso é importante que quem vive connosco tenha essa sensibilidade. Amamentemos ou não, o estado de vigilância (tão cansativo), o estado de hipnose e enamoramento , a esquizofrenia de sentimentos maternos que se não tivermos um cuidador, simplesmente não comemos, não tomamos banho, não trocamos de roupa porque não temos a facilidade de a ir procurar.

Em cima de tudo isto, a nossa natureza mamífera guia-nos para sermos colchões humanos, pelo que muitas vezes ficamos horas com os nossos filhos no colo, e sim, somos capazes de ficar horas a olhar. Clara que isto não é chapa 5, mas é muito normal. Partilhamos o nosso calor, reconfortamos com os nossos batimentos, o nosso cheiro, a nossa voz.


Quanto às críticas, bom…já sabemos que afinal não somos robots e este contacto humano e cuidador, são-nos intrínsecos. Atentar na sobrevivência do nosso bebé, confirmar se respiram, observar cada mínimo pormenor que pode escapar aos olhos da maioria. É natural! É ser-se humano! Portanto se te identificas, não está nada de errado contigo, simplesmente vivemos um tempo de grande isolamento na nossa sociedade e um grande afastamento de uma grande conquista civilizacional chamada empatia e houve tempos (recentes) em que os bebés eram tratados como gadgets.

Passaram a ser tratados como um tamagochi.

  • De x em x horas come.
  • De x em  x horas precisa de 10 minutos de atenção;
  • Precisa de x minutos de ginástica diária;
  • É importante estimular x minutos

Parece que estamos a ler um manual de um robot. Mas não… É um bebé mesmo. E o ser humano sente fome a horas diferentes, fica satisfeito com quantidades diferentes, pede atenção quando sente que precisa (e nem devia ser preciso, mas vivemos com um manual…), procura estímulos no mundo, em cada coisa que o rodeia. Exercita-se se estiver em contacto connosco se o ajudarmos a alcançar aquelas coisas que, não sabemos bem como, mas sabemos que querem.

O manual que precisamos, não vem em livros. Não dá para sacar, para digitalizar, para partilhar. Está dentro de nós, chama-se instinto! Toda esta pressão, somada ao isolamento em que as recém-mães vivem, é avassalador.


Não temos -por norma- a nossa família a morar connosco. Tias e tios, irmãs e irmãos, mães e pais, sensibilizados para assumirem um papel cuidador. Não da criança, mas da mãe (e da criança se a mãe assim o entender.).

Nesta imagem, o meu companheiro deixou um tabuleiro com comida, assim como assegurava que tinha tudo o que precisava antes de sair.  A licença maternal e paternal é encarada como uma cena muito fixe, tipo mini-férias, e não uma cena muito fixe tipo assegurar o bem-estar da nossa recente família.

Há quem sofra o estigma, por pedir a licença parental! É encarado como o tipo ou a tipa que são preguiçosos e se querem baldar ao trabalho. No fundo espelha a nossa sociedade altamente padronizada e consumista, que não consegue conceber um facto chocante: as pessoas têm uma vida fora do trabalho.

Trabalhamos por uma questão de realização pessoal e naturalmente, por uma questão de subsistência (esperem lá que esta vai ser difícil para muita gente) da família. O que pressupõe que existe uma família e consequentemente, essa família precisa de nós e nós da nossa família. parece rebuscado, mas pronto, vou deixar entranhar.

Não, as licenças parentais não são mini-férias e não, a mulher não se safa sozinha. Aliás, safa-se (que remédio), mas com um cansaço extremo. Se fosse o pai a tratar sozinho da criança, iria dar ao mesmo, porque estamos a falar de uma carga gigantesca para um pessoa sem rede de apoio.

Alguns pais audazes, que se orientam para ficar a cuidar do bebé na fase da adaptação da mãe da criança à nova rotina de trabalho, têm vindo a partilhar nas redes sociais que entendem pela primeira vez, do que falam as mulheres quando usam a palavra “exaustão”.

Naturalmente temos a questão biológica, neurológica, e todas aquelas questões que nos distinguem,mas focando na carga mental, no cansaço e na gestão das responsabilidades e novas dinâmicas, podemos entender a dimensão da coisa quando a vivemos. Acrescentem a isto o impacto hormonal.

Dentro das realidades que acompanho, sei que ainda assim tive bastante apoio. Tive a minha doula, a minha família próxima, mas na prática, estava sozinha com dois bebés na maior parte do dia. O meu companheiro numa empresa altamente desrespeitadora da vida familiar, com horários e folgas rotativas, uma desorganização total para quem se está a tentar adaptar a uma nova realidade. Como nós, há muitas famílias a passar pelo mesmo.

O amor move todas as montanhas e todos os obstáculos. Nós fazemos, nós conseguimos tudo! Contudo, não podemos ser hipócritas ignorando o preço a pagar pela organização social que vivemos. A depressão pós-parto é uma realidade e é a 5ª causa de morte materna na nossa sociedade. É um risco real e palpável.


Esta partilha não serve para vos desencorajar, até porque com todas as famílias que acompanhei até hoje, arranjaram-se sempre formas muito criativas de resolver os obstáculos. O acompanhamento, o planeamento, são de facto importantes, e é também importante que tenhamos uma voz na nossa sociedade e mostremos que as licenças não são férias, mas um período crucial para organizar a nova dinâmica familiar, dando ao bebé que nasceu, uma estrutura, atenção e tempo.

Permite ao casal/mãe/pai que se articulem e alternem nos cuidados permanentes que necessita um bebé, até porque é um bebé. Não é um tamagochi! E o amor que sentimos de volta, também não é nenhuma emoção virtual, sente-se no coração, no corpo e na alma!


Lanço então o desafio, que podem fazer entre amigos e amigas, em falar acerca do pós-parto. Quais as soluções mais criativas que articularam para facilitar a nova dinâmica? Que apoios sentiram por parte das vossas entidades patronais? Qual era aquela coisa especial que precisaram?

‘Bora falar sobre #póspartosemfiltros ?

 

♥♥♥

 

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s