Quero estar!

Há dias vi um documentário sobre o início da vida, onde vários ramos da ciência explicavam o que realmente impactava no desenvolvimento das crianças (the beginning of life, no NETFLIX).

Entre os vários ramos da ciência, também alguns activistas em zonas de 3º mundo, explicavam alguns pontos-chave, sobre o que observavam.

Neste documentário, todos concordavam num ponto: não é possível ajudar a criança, sem ajudar a mãe.

Isto é ciência.

E falaram especificamente da mãe, alegando que também havia casos em que a mãe estava ausente, ou tinha falecido, e naturalmente que nesses casos se tinha que ajudar o cuidador.

carefree child childhood countryside
Photo by Pixabay on Pexels.com

Foram abordadas várias famílias; ricas, pobres, classe média; com formação, sem formação; com adição às drogas, com estilos de vida saudáveis; etc… Em todas elas, o objectivo dos cuidadores era transversal: dar o melhor àquelas crianças. E aqui entramos num novo ramo. Uma pessoa que vive numa favela, sem comida, sem recursos, com níveis de stress gigantescos, eventualmente próximos de situações de grande violência, não deixa de dar o melhor que pode dar.

Julgar, ajuda alguém? Não. Aumenta a culpa, o stress, a tristeza, o desespero.

Uma menina de 10 anos tomava conta de 3 irmãos, numa barraca sem recursos a água potável e saneamento. Aquela criança fazia o papel da mãe (que estava a trabalhar de manhã à noite), alimentava os irmãos, ia buscar água, levava-os à escola, limpava-os.

10 anos.

Então se as crianças tiverem uma doença, podem ser tratadas por algumas tendas de apoio, mas isso irá resolver o problema daquela família? Não. Porquê? Porque a mãe precisa de ser ajudada e enquanto não for, a criança irá entrar num circuito de doença por falta de comida/isolamento térmico/higiene, até que poderá colapsar.

No mundo ocidental “”civilizado”” este quadro muda (e ainda bem!), e existe de facto uma rede mais efectiva no apoio às famílias. O conceito de pobreza muda, mas há algo que liga as famílias entre as classes, e relaciona-se com o tempo e com o apoio efectivo dado aos cuidadores.

Estas semanas, frequentei formações que exigiam que fosse para Lisboa de transportes, pelas 6:30 da manhã, e voltasse perto das 20:00 (chegando a casa até às 21). Nos transportes, além do sono chapado na cara das pessoas, e o cansaço, via tristeza. Muita tristeza.

No documentário questionaram uma cuidadora sobre os seus sonhos. Era tão nova, fazia tanto, e a repórter questionou quais eram os seus sonhos, ao que a menina responde “não tenho sonhos”.

Obviamente que não estou aqui a comparar o nível de vida/sofrimento/provações, porque nem sequer é comparável. A questão aqui – que me sensibiliza imenso- é que afastamos as famílias numa rotina social totalmente irresponsável para com o futuro.

Vi a maioria das pessoas em piloto automático.

Li entretanto um artigo de um rapaz da minha idade que dizia que a vida dele era andar de transportes e fazer marmitas. Quando temos filhos, nesta sociedade que imprime um ritmo desenfreado, é efectivamente o que acaba por acontecer. As famílias estão exaustas e cada vez mais, quando acompanho casais, me deparo com a questão sobre “como vai ser”.

As pessoas questionam como vão gerir o tempo, para poderem acompanhar aquela criança que aí vem, de modo a estarem efectivamente presentes. Os sonhos delas, não passam por deixar a criança na escola das 8/17, acrescentando umas horas de ATL ou outra actividade, para estarem com os filhos das 19/21 (e já é tarde, para uma criança que acorda às 7), e poderem ser pais nas folgas (que muitas vezes não coincidem com @ parcei@). Ninguém sonha pela parentalidade a correr, porque na realidade muitos de nós só nos deparamos com isso, quando a estamos a viver.

Outro entrevistado documentário, indicava que no Brasil gastava-se imenso dinheiro com prisões e cuidados de saúde por negligência (entenda-se que não se trata de algo feito propositadamente, mas por consequência de uma gigantesca falta de apoio). Então o que ele dizia, era que um programa que fizeram, dava cerca de $500/ano por criança, apostando na educação e alimentação, tirando um peso das famílias e promovendo o contacto da criança fora do círculo vicioso em que vivia.

Os resultados mostram que essas crianças oriundas de famílias apoiadas, quando atingiam os 22 anos, tinham drasticamente menos propensão a serem presas ou estarem doentes. Muitos deles teriam emigrado e conseguiam um salário muito acima da média.

Também ficou bem sublinhado, que mesmo em lares com profundas faltas de recursos, o factor determinante era o amor. Podíamos ter crianças com todos os recursos, que se houvesse falta de amor e vínculo, haveria garantidamente consequências. Mais uma vez, sublinhou-se a necessidade de ajudar a mãe (e cuidadores), de modo a que ela estivesse emocionalmente disponível para o vínculo e para dar esse amor.

É fácil julgar uma mãe no supermercado que grita, que sacode, mas ninguém vai lá perguntar se pode ajudar. Lançam-se olhares de reprovação, sussurros, dedos apontados. E apoio? Quem vai tratar um filho assim propositadamente? Quem está em níveis de stress brutais | quem passa necessidades | quem tem o peso da responsabilidade sem apoio | quem não tem tempo para respirar.

adult alone anxious black and white
Photo by Kat Jayne on Pexels.com

Felizmente não vivemos em países com tanta miséria, com tanta pobreza e falta de dignidade. Então temos o dever de fazer melhor e saber melhor.

Vejo famílias com desejos, com sonhos e posso dizer que o que mais ouço das famílias que acompanho depois do parto, são queixas sobre a falta de tempo para estar com os filhos. Simplesmente estar. Sem preocupações, sem stress, sem relógios ou mails, sem exigências.

Criticamos jovens frios e distantes, que apenas se focam no virtual, mas ninguém critica a falta de apoio que aquelas famílias vivem, em que o pouco (e cronometrado) tempo que têm, é para fazer compras/jantares. Nem ajuda com a escola, conseguem dar. Precisam de redes de apoio, e o apoio que recebemos são instituições para pormos as nossas crianças, para nós darmos ainda mais tempo com pouco retorno em dinheiro, mais tempo longe dos filhos, níveis de stress elevados e uma desmotivação que nos puxa para estados depressivos. A única coisa que fica salvaguardada, é que a criança estará segura.

Como é que é suposto as famílias construírem vínculos, se não estão presentes? Quanto muito, conseguem ter o privilégio de ir a conduzir loucamente do trabalho para a escola dos filhos, e depois chegando a casa, darem apoio nos trabalhos que trazem da escola.

A sociedade tem que ganhar voz. Como está expresso neste documentário (que super recomendo) o retorno desta falta de tempo/amor/vínculo, é negativo. O preço é demasiado alto, e não há dinheiro que pague o amor, que no fundo como dizem nestas peças, é o amor que constrói aquilo que somos. É também a falta de amor que nos faz não saber dar amor. Damos o que temos cá dentro. Se enchemos o nosso vaso com água suja, por mais que tentemos impedir as impurezas de passar, inadvertidamente vamos dar água suja.

A escola foi a solução encontrada nos países subdesenvolvidos, para amenizar a miséria. Sabem que é urgente apoiar as mães, darem espaço para que sejam uma pessoa além da mãe e que assim possam estar inteiras para dar amor aos filhos.

Nós sabemos disto. Sabemos que além do trabalho profissional, o trabalho cuidador, também temos que trabalhar em nós próprios para assim alimentarmos o coração e a alma, e dessa forma podermos nutrir com mais amor.

No nosso mundo sabemos disto, mas usamos a escola como uma ferramenta para afastar as famílias, com a desculpa do construir currículo, ao mesmo tempo que conseguimos tirar os pais de casa, colocando-os a alimentar um modelo económico decadente e frio, que nos olha como números e ferramentas.

Precisamos de um olhar mais profundo neste modelo, porque na verdade o que nos mostram, é que o currículo em si não irá formar aquela criança. O que irá formar aquele futuro adulto activo, de uma futura geração dominante, é o amor, a presença, a harmonia. Com um relógio “tiquetaqueante” que só nos deixa “estar” sempre com a aura das responsabilidades, deitando as crianças à pressa e acordando a correr, restam as folgas, que carregadas de boas intenções, não deixam de ter presentes pais exaustos a precisar de ajuda.

A sociedade não dá tempo e apoio à grávida, não comunica (porque não tem tempo) sobre as suas opções, e continua assim neste registo pela primeira infância, pela idade escolar, pela adolescência e imprimimos este ritmo aos nossos filhos inconscientemente. São círculos e os padrões são difíceis de quebrar porque qualquer um de nós que ouse romper com o círculo, é facilmente criticado e julgado, em vez de se reflectir no “porquê”, dando ferramentas.

Só com mais quebras de círculos, com mais questões levantadas e com mais predisposição para a empatia, conseguiremos caminhar para um mundo com menos pressa e mais amor.

É urgente! Deixem-nos estar!

camping tent on grass lawn
Photo by Matheus Bertelli on Pexels.com

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